Na nota anterior vimos que o quadrado das oposições organiza quatro proposições categóricas em torno de quatro relações: contradição, contrariedade, subcontrariedade e subalternação. Tudo isso foi pensado por Aristóteles para frases como "todo aluno passou" ou "algum aluno não passou" — proposições sobre quantidades. Nada ali, a princípio, tem a ver com negação paraconsistente, negação paracompleta ou qualquer discussão de lógica não-clássica. E, no entanto, é exatamente esse vocabulário que vamos usar agora para organizar as três negações que interessam a este blog.

A sugestão de Béziau

Em 2003, o lógico Jean-Yves Béziau publicou um artigo com um título estranho: "New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner" — "nova luz sobre o quadrado das oposições e seu canto sem nome" (Beziau, 2003Beziau, Jean-Yves. New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner. Logical Investigations. v. 10. p. 218-232. 2003.). O "canto sem nome" é o vértice O do quadrado: temos palavras prontas para "todo", "algum" e "nenhum", mas nenhuma língua natural parece ter uma palavra primitiva só para "nem todo" (Beziau, 2003Beziau, Jean-Yves. New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner. Logical Investigations. v. 10. p. 218-232. 2003.; p. 218-219).

Mas o que interessa aqui não é essa curiosidade lexical — é o que Béziau faz com ela. Ele observa que as três relações do quadrado (deixando de lado a subalternação, que ele não trata como uma relação de oposição genuína) não precisam ser definidas só para proposições do tipo A, E, I, O: podem ser definidas para qualquer par de proposições, e portanto também para operadores lógicos. Um operador #\# é:

E então vem a tese central do artigo: existe uma correspondência direta entre essas três noções de operador e as três negações que já conhecemos deste blog — negação clássica como operador contraditório, negação paracompleta como operador contrário, negação paraconsistente como operador subcontrário (Beziau, 2003Beziau, Jean-Yves. New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner. Logical Investigations. v. 10. p. 218-232. 2003.; p. 222-223). (Segundo Béziau relata, os próprios termos "paraconsistente" e "paracompleto" para negação vêm de uma carta que o filósofo peruano Francisco Miró Quesada escreveu a da Costa em 1975 (Beziau, 2003Beziau, Jean-Yves. New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner. Logical Investigations. v. 10. p. 218-232. 2003.; p. 222) — outro fiozinho da história que conecta este blog a essa tradição.)

Vale notar que essa correspondência dá a Béziau uma resposta direta ao desafio de Slater que já apareceu na primeira nota desta série: se Slater diz que a negação paraconsistente não é negação porque é "apenas" um operador subcontrário, Béziau simplesmente inverte a acusação — "podemos também afirmar exatamente o contrário: as negações paraconsistentes são negações porque são operadores subcontrários" (Beziau, 2003Beziau, Jean-Yves. New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner. Logical Investigations. v. 10. p. 218-232. 2003.; p. 223). A ideia é que não dá para separar negação de oposição: se existem três tipos de oposição, é razoável esperar três tipos de negação.

Uma fórmula contra suas três negações

Voltemos então à nossa própria fórmula α\alpha e às suas três negações: ¬cα\neg_c\alpha (clássica), ¬qα\neg_q\alpha (paracompleta) e ¬pα\neg_p\alpha (paraconsistente). Um exemplo ajuda a sentir a diferença antes de formalizar: suponha que α\alpha seja "a turma passou". ¬cα\neg_c\alpha é a negação de sempre — se a turma passou, é falso que não passou, e vice-versa, sem meio-termo. ¬qα\neg_q\alpha é mais cautelosa: reflete uma situação em que ainda não temos informação suficiente para afirmar nem que a turma passou nem que não passou — as duas podem estar indecididas ao mesmo tempo. ¬pα\neg_p\alpha vai no sentido oposto: reflete uma situação de informação excedente, e não escassa — relatos que se contradizem, um dizendo que a turma passou e outro que não, sem que isso torne tudo trivial.

Aplicando a sugestão de Béziau a esse trio: α\alpha e ¬cα\neg_c\alpha não podem ter o mesmo valor de verdade — são contraditórias. α\alpha e ¬qα\neg_q\alpha podem ser ambas falsas (o caso indeciso), mas não ambas verdadeiras — são contrárias. α\alpha e ¬pα\neg_p\alpha podem ser ambas verdadeiras (o caso dos relatos conflitantes), mas não ambas falsas — são subcontrárias (Gracher, 2022Gracher, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres. College Publications. 2022.; p. 51-52).

Mostra α\alpha no centro ligada a ¬cα\neg_c\alpha (contraditórias, azul), ¬qα\neg_q\alpha (contrárias, vermelho) e ¬pα\neg_p\alpha (sub-contrárias, verde).

Uma estrela não bastou nem para Béziau

Isso já nos dá uma figura de quatro pontas — mas seria enganoso chamá-la de quadrado, porque ela não tem quatro proposições concorrendo entre si como A, E, I, O: tem uma proposição no centro e três negações ao redor. É interessante notar que o próprio Béziau, ao tentar desenhar essa mesma ideia — uma proposição PP e suas três negações — esbarrou no mesmo problema: PP simplesmente não cabe no quadrado tradicional, que só tem espaço para quatro proposições quantificadas ou modais (Beziau, 2003Beziau, Jean-Yves. New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner. Logical Investigations. v. 10. p. 218-232. 2003.; p. 226). A solução dele foi bem mais elaborada que a nossa: construiu três "estrelas" separadas (cada uma cruzando PP com uma de suas negações, à moda do hexágono de Blanche) e depois uniu as três estrelas pelos vértices que elas compartilham, obtendo um sólido de doze vértices — um dodecaedro estrelado das oposições (Beziau, 2003Beziau, Jean-Yves. New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner. Logical Investigations. v. 10. p. 218-232. 2003.; p. 226-229).

Não precisamos de doze vértices. Com apenas três negações primitivas — e não uma família aberta de operadores modais e quantificacionais, como no projeto de Béziau — dá para chegar a algo bem mais simples.

O tetraedro simples das oposições

Falta ainda uma relação: haveria alguma subalternação entre as três negações? Para responder, precisamos apenas das condições de verdade de cada negação:

(i) υ(¬cα)=1υ(α)=0\text{(i) } \upsilon(\neg_c\alpha) = 1 \Leftrightarrow \upsilon(\alpha) = 0(ii) υ(¬pα)=0υ(α)=1\text{(ii) } \upsilon(\neg_p\alpha) = 0 \Rightarrow \upsilon(\alpha) = 1(iii) υ(¬qα)=1υ(α)=0\text{(iii) } \upsilon(\neg_q\alpha) = 1 \Rightarrow \upsilon(\alpha) = 0

Se ¬qα\neg_q\alpha é verdadeira, por (iii) α\alpha é falsa; e se α\alpha é falsa, por (i) ¬cα\neg_c\alpha é verdadeira. Ou seja, υ(¬qα)=1υ(¬cα)=1\upsilon(\neg_q\alpha) = 1 \Rightarrow \upsilon(\neg_c\alpha) = 1: a negação paracompleta subalterna a negação clássica (Gracher, 2022Gracher, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres. College Publications. 2022.; p. 52-53).

Mesma figura anterior, acrescida da primeira subalternação: ¬qα¬cα\neg_q\alpha \to \neg_c\alpha.

Suponha agora que ¬cα\neg_c\alpha é verdadeira. Por (i), α\alpha é falsa. E se α\alpha é falsa, pela contrapositiva de (ii) — se α\alpha não é verdadeira, ¬pα\neg_p\alpha não pode ser falsa — segue que ¬pα\neg_p\alpha é verdadeira. Temos então υ(¬cα)=1υ(¬pα)=1\upsilon(\neg_c\alpha) = 1 \Rightarrow \upsilon(\neg_p\alpha) = 1: a negação clássica subalterna a negação paraconsistente (Gracher, 2022Gracher, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres. College Publications. 2022.; p. 53).

A figura anterior, acrescida da segunda subalternação: ¬cα¬pα\neg_c\alpha \to \neg_p\alpha.

E, por transitividade das duas relações já obtidas, υ(¬qα)=1υ(¬pα)=1\upsilon(\neg_q\alpha) = 1 \Rightarrow \upsilon(\neg_p\alpha) = 1: a negação paracompleta subalterna também a paraconsistente (Gracher, 2022Gracher, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres. College Publications. 2022.; p. 54). Com essa terceira subalternação, fechamos a figura:

O Tetraedro Simples das Oposições completo: α\alpha no centro, as três negações nos vértices, três relações de oposição (contraditórias, contrárias, sub-contrárias) partindo de α\alpha, e as três subalternações fechando o triângulo externo.

Chamamos essa figura de Tetraedro Simples das Oposições (Gracher, 2022Gracher, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres. College Publications. 2022.; p. 52-55): quatro vértices — α\alpha, ¬cα\neg_c\alpha, ¬qα\neg_q\alpha, ¬pα\neg_p\alpha — e seis relações entre eles, nem mais nem menos do que a sugestão de Béziau, aplicada com o mínimo de aparato necessário, permite derivar.

Um convite, de novo

Chegamos a algo que parece fazer sentido: um mapa completo de como três negações tão diferentes se relacionam entre si e com a fórmula que negam. Mas notem que esse mapa foi construído inteiramente na semântica — em termos de valores de verdade que uma fórmula e suas negações podem ou não compartilhar. Ele não nos diz se existe algum sistema lógico dentro do qual essas seis relações realmente podem ser expressas e demonstradas — um sistema em que uma fórmula como ¬cα¬pα\neg_c\alpha \rightarrow \neg_p\alpha, ou mesmo algo como ¬c¬p¬qα\neg_c\neg_p\neg_q\alpha, com as três negações reiteradas sobre a mesma fórmula, faça sentido.

Essa pergunta parece simples, mas a resposta não é óbvia.

Bibliografia

Referências bibliográficas

  1. Beziau, Jean-Yves. New Light on the Square of Oppositions and its Nameless Corner. Logical Investigations. v. 10. p. 218-232. 2003.
  2. Gracher, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres. College Publications. 2022.