Terminamos a nota anterior com uma pergunta em aberto: existe algum sistema lógico em que as seis relações do Tetraedro Simples das Oposições — as três oposições entre α\alpha e suas negações, mais as três subalternações entre as negações — possam de fato ser demonstradas, e não apenas verificadas semanticamente? Um sistema em que uma fórmula como ¬qα¬pα\neg_q\alpha \rightarrow \neg_p\alpha, ou mesmo ¬c¬p¬qα\neg_c\neg_p\neg_q\alpha, com as três negações reiteradas sobre a mesma fórmula, realmente faça sentido?

Um candidato óbvio já está na mesa. Vimos, na nota "Três modos de negar", que N1N_1 é o único dos sistemas de da Costa (1989)da Costa, N.C.A.. Logics that are both paraconsistent and paracomplete. Atti della Accademia Nazionale dei Lincei. Classe di Scienze Fisiche, Matematiche e Naturali. Rendiconti. v. 83. n. 1. p. 29–32. Accademia Nazionale dei Lincei. 1989. que introduz as três negações — clássica, paraconsistente e paracompleta — dentro de uma única linguagem, através dos operadores de bom comportamento α\alpha^\circ (bom comportamento paraconsistente) e α\alpha^\bullet (bom comportamento paracompleto). Isso é, inclusive, o que justifica chamá-lo de sistema "ecumênico". A pergunta deste texto é simples: N1N_1 dá mesmo conta disso?

Reiteração e iteração: uma distinção necessária

Para responder, preciso separar dois problemas que parecem iguais, mas não são.

Reiteração é a repetição do mesmo processo sem alterar o modo como ele opera. Uma fórmula como ¬c¬c¬cα\neg_c\neg_c\neg_c\alpha é uma reiteração: a mesma negação clássica aplicada três vezes seguidas.

Iteração, por outro lado, é a repetição de um processo em que, a cada passo, algo pode mudar. Uma fórmula como ¬p¬q¬cα\neg_p\neg_q\neg_c\alpha é uma iteração: três negações diferentes — paraconsistente, paracompleta, clássica — encadeadas sobre a mesma fórmula.

N1N_1 lida bem com reiteração. Isso já está resolvido desde a nota "Três modos de negar": se uma fórmula é bem comportada em ambos os sentidos, toda negação não-alética reiterada sobre ela continua se comportando classicamente; se é bem comportada só paraconsistentemente, a reiteração continua paraconsistente; e assim por diante. O problema é outro: N1N_1 consegue lidar com iteração? Consegue, por exemplo, demonstrar ¬qα¬pα\neg_q\alpha \rightarrow \neg_p\alpha — a própria subalternação que construímos na nota anterior?

O Teorema de Arruda trava a porta

A resposta depende de um resultado técnico que a tradição paraconsistente brasileira já conhecia bem antes de N1N_1: o Teorema de Arruda, batizado em homenagem à lógica Ayda Arruda, que o demonstrou originalmente para C1C_1. Adaptado para N1N_1, ele diz:

α\vdash \alpha^{\circ\circ}

Ou seja: o próprio bom comportamento paraconsistente de uma fórmula é, sempre, bem comportado. Não existe fórmula cujo bom comportamento seja, ele mesmo, contraditório.

Desse teorema — e de dois resultados que o acompanham, segundo os quais o bom comportamento de α\alpha se transmite a ¬α\neg\alpha nos dois sentidos (α(¬α)\alpha^\bullet \rightarrow (\neg\alpha)^\bullet e α(¬α)\alpha^\circ \rightarrow (\neg\alpha)^\circ) — segue algo que não é nada óbvio à primeira vista: o bom comportamento de uma fórmula se propaga por toda a cadeia de negações reiteradas sobre ela, para sempre, nos dois sentidos ao mesmo tempo.

O que dá errado

Vejamos a fórmula (a) ¬qα¬pα\neg_q\alpha \rightarrow \neg_p\alpha — exatamente a subalternação entre a negação paracompleta e a paraconsistente que o Tetraedro Simples exige.

Pela definição de N1N_1 (a mesma que já vimos antes):

¬qα=def¬(α)(α¬α)\neg_q\alpha =_{def} \neg(\alpha^\bullet) \wedge (\alpha^\circ \wedge \neg\alpha)¬pα=def¬(α)(α¬α)\neg_p\alpha =_{def} \neg(\alpha^\circ) \wedge (\alpha^\bullet \wedge \neg\alpha)

Suponha que (a) seja verdadeira e que ¬qα\neg_q\alpha também seja. De ¬qα\neg_q\alpha extraímos α\alpha^\circ. Aplicando modus ponens em (a), obtemos ¬pα\neg_p\alpha — e de ¬pα\neg_p\alpha extraímos ¬(α)\neg(\alpha^\circ). Chegamos então a α¬(α)\alpha^\circ \wedge \neg(\alpha^\circ) — exatamente o que o Teorema de Arruda proíbe. A fórmula (a) não pode, portanto, ser verdadeira em N1N_1.

Vale reaproveitar aqui: é exatamente a subalternação ¬qα¬pα\neg_q\alpha \to \neg_p\alpha desse tetraedro que N1N_1 está recusando.

Ou seja: a subalternação que tínhamos acabado de demonstrar semanticamente, usando o vocabulário da Teoria das Oposições — se ¬qα\neg_q\alpha é verdadeira, α\alpha é falsa, e se α\alpha é falsa, ¬pα\neg_p\alpha é verdadeira — é diretamente refutada dentro de N1N_1. O sistema que deveria hospedar as três negações contradiz a própria relação que as caracteriza como as três negações que dissemos que eram.

O segundo tipo de fórmula, como (b) ¬c¬p¬q¬cαα\neg_c\neg_p\neg_q\neg_c\alpha \rightarrow \alpha, revela um problema ainda mais sutil. Assim que a primeira negação de dentro para fora é clássica (¬cα\neg_c\alpha), a definição de N1N_1 exige que α\alpha seja bem comportada nos dois sentidos (αα\alpha^\circ \wedge \alpha^\bullet) — e, pelo mesmo mecanismo do Teorema de Arruda, essa dupla boa comportação se propaga para ¬cα\neg_c\alpha, e da mesma forma para cada negação seguinte, não importa qual símbolo usemos para escrevê-la. O resultado é que uma fórmula que parece alternar entre negação clássica, paraconsistente e paracompleta — ¬c¬p¬q¬cα\neg_c\neg_p\neg_q\neg_c\alpha — é, por dentro, forçada a se comportar exatamente como ¬c¬c¬c¬cα\neg_c\neg_c\neg_c\neg_c\alpha: puramente clássica, do início ao fim. Os símbolos pp e qq ali no meio da fórmula não fazem diferença nenhuma (Gracher, 2026Gracher, Kherian. Can da Costa's Non-Alethic Logic Really Handle Multiple Negations?. Manuscrito.; p. 8-11).

Um sistema pluralista, mas só um de cada vez

O diagnóstico, então, é este: N1N_1 trata muito bem cada uma das três negações isoladamente — reiterar a mesma negação funciona exatamente como esperado, e por isso obtemos CPLCPL, C1C_1 e P1P_1 como casos particulares de N1N_1, cada um em seu devido contexto. O que N1N_1 não consegue fazer é deixar as três negações interagirem dentro de uma mesma fórmula — misturá-las, combiná-las, fazer uma subalternar a outra. E é exatamente essa interação que o Tetraedro Simples exige, e que qualquer sistema que se pretenda "ecumênico" — no sentido forte de unificar as três negações, e não só hospedá-las lado a lado — deveria oferecer.

Um resultado parecido, aliás, aparece já em C1C_1 sozinho, sem precisar de N1N_1: se a negação clássica de C1C_1 (a chamada "negação forte", ¬α\neg^\star\alpha) é aplicada e depois negada de novo paraconsistentemente, o mesmo Teorema de Arruda força a segunda negação a também se comportar classicamente (Gracher, 2026Gracher, Kherian. Can da Costa's Non-Alethic Logic Really Handle Multiple Negations?. Manuscrito.; p. 12-13). Isso não é uma peculiaridade de N1N_1; é uma consequência de como da Costa constrói suas negações — marcando a proposição como bem ou mal comportada, em vez de tratar cada negação como um conectivo primitivo por si. Já defendi, numa nota anterior desta série, que é exatamente essa escolha — marcar a proposição em vez do conectivo — que gera esse tipo de problema. O que temos aqui é a demonstração formal de que a intuição estava certa.

Um convite, uma última vez

Se o que faz de uma negação uma negação é justamente que ela realiza, com uma proposição, uma relação de contradição, contrariedade ou subcontrariedade — como a Teoria das Oposições sugere, e como o próprio Béziau propôs para justificar o uso desse vocabulário —, então precisamos de um sistema em que essa relação valha em qualquer contexto, inclusive quando as negações estão misturadas na mesma fórmula. N1N_1 não é esse sistema: ele preserva as relações dentro de cada contexto isolado, mas não entre contextos diferentes.

Foi para resolver exatamente esse problema — um sistema em que as três negações sejam primitivas desde o início, e não efeitos colaterais do bom ou mau comportamento de uma proposição — que desenvolvi os Sistemas KG.

Bibliografia

Referências bibliográficas

  1. Gracher, Kherian. Can da Costa's Non-Alethic Logic Really Handle Multiple Negations?. Manuscrito.
  2. Gracher, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres. College Publications. 2022.
  3. da Costa, N.C.A.. Logics that are both paraconsistent and paracomplete. Atti della Accademia Nazionale dei Lincei. Classe di Scienze Fisiche, Matematiche e Naturali. Rendiconti. v. 83. n. 1. p. 29–32. Accademia Nazionale dei Lincei. 1989.