A negação clássica tem duas exigências: uma proposição e sua negação nunca podem ser ambas verdadeiras (Princípio da Não-Contradição), e nunca podem ser ambas falsas (Princípio do Terceiro Excluído). Some a isso o Ex Falso — de uma contradição, qualquer coisa se segue — e entende-se por que uma única contradição basta para trivializar uma teoria clássica inteira.
Relaxar a primeira exigência sem relaxar a segunda dá origem às lógicas paraconsistentes. Relaxar a segunda sem relaxar a primeira dá origem às lógicas paracompletas. O truque, nos dois casos, é fazer isso sem perder o controle — sem que relaxar uma exigência acabe, de novo, trivializando tudo.
Quando uma contradição não explode
Em (da Costa, 1963DA COSTA, Newton C. A. Calculs propositionnels pour les systèmes formels inconsistants. Comptes Rendus de l'Académie des Sciences de Paris, Paris, t. 257, p. 3790-3792, 1963.), a negação paraconsistente é semanticamente mais fraca que a clássica: , mas não vale a volta. Ou seja, falsa ainda garante verdadeira — mas verdadeira não garante mais que seja falsa. É exatamente essa brecha que permite e serem ambas verdadeiras sem trivializar o sistema.
O preço não é abrir mão de tudo — é restringir. Da Costa define um operador de bom comportamento: . Uma fórmula é bem comportada quando o Princípio da Não-Contradição vale especificamente para ela. E só para as fórmulas bem comportadas o Ex Falso volta a ser teorema. Para as demais, a negação faz exatamente o que se espera de uma negação paraconsistente: tolera contradições, sem deixar que elas contaminem o resto do sistema.
Quando nem tudo é verdadeiro ou falso
O caminho espelhado leva a (Costa e Marconi, 1986DA COSTA, Newton C. A.; MARCONI, Diego. A note on paracomplete logic. Atti della Accademia Nazionale dei Lincei, Classe di Scienze Fisiche, Matematiche e Naturali, Rendiconti, Roma, série 8, v. 80, p. 504-509, 1986.). Aqui, deixa de ser teorema geral — pode haver uma fórmula que não seja nem verdadeira, nem falsa. O operador de bom comportamento correspondente é : uma fórmula é bem comportada quando o Terceiro Excluído vale para ela, especificamente.
Note a simetria: restringe a Não-Contradição e mantém o Terceiro Excluído; restringe o Terceiro Excluído e mantém a Não-Contradição. Ambos preservam o mesmo fragmento positivo — conjunção, disjunção, condicional funcionam exatamente como na lógica clássica. A diferença entre os três sistemas mora inteiramente na negação (Gracher, 2022Referência completa: GRACHER, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres: College Publications, 2022.; cap. 1.2-1.4).
Essa simetria não é coincidência, e não passou despercebida.
Quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo
escolhe restringir a Não-Contradição. escolhe restringir o Terceiro Excluído. Mas por que escolher? Anos depois de propor os dois sistemas, da Costa tentou construir um terceiro que não precisasse escolher — capaz de admitir tanto contradições quanto lacunas de verdade, fórmula por fórmula, sem deixar de recuperar a lógica clássica quando as condições certas estivessem satisfeitas. A esse sistema ele deu o nome de lógica não-alética, (da Costa, 1989DA COSTA, Newton C. A. Logics that are both paraconsistent and paracomplete. Atti della Accademia Nazionale dei Lincei, Classe di Scienze Fisiche, Matematiche e Naturali, Rendiconti, Roma, série 8, v. 83, n. 1, p. 29-32, 1989.).
A primeira dificuldade é de vocabulário. tem um único conectivo de negação primitivo, — nem clássico, nem paraconsistente, nem paracompleto, isoladamente. Para dar sentido a ele, da Costa precisa dos dois operadores de bom comportamento ao mesmo tempo, não mais de um só: o operador- que já vimos em (bom comportamento no sentido da Não-Contradição) e o operador- que já vimos em (bom comportamento no sentido do Terceiro Excluído):
Um dos postulados de garante algo importante: — toda fórmula é bem comportada em pelo menos um dos dois sentidos. Nenhuma fórmula pode ser mal comportada nos dois sentidos ao mesmo tempo. Isso deixa exatamente três possibilidades para qualquer fórmula :
- ela satisfaz a Não-Contradição, mas não o Terceiro Excluído — uma fórmula paraconsistente;
- ela satisfaz o Terceiro Excluído, mas não a Não-Contradição — uma fórmula paracompleta;
- ela satisfaz as duas coisas — uma fórmula clássica.
É exatamente dessa divisão em três casos que da Costa consegue, finalmente, definir as três negações vistas nas seções anteriores — não mais como sistemas separados, mas como três comportamentos diferentes de um único conectivo, dependendo de qual dos três casos a fórmula ligada a ele satisfaz:
Em outras palavras: a negação de uma fórmula paraconsistentemente mal comportada (mas paracompletamente bem comportada) se comporta como ; a de uma fórmula paracompletamente mal comportada (mas paraconsistentemente bem comportada) se comporta como ; e a de uma fórmula bem comportada nos dois sentidos se comporta como — a negação clássica de sempre.
A recompensa vem em três teoremas de recuperação, espelhando exatamente o que já vimos nas seções anteriores: adicionar o Terceiro Excluído a devolve ; adicionar a Não-Contradição devolve ; adicionar as duas coisas devolve a lógica clássica (da Costa, 1989DA COSTA, Newton C. A. Logics that are both paraconsistent and paracomplete. Atti della Accademia Nazionale dei Lincei, Classe di Scienze Fisiche, Matematiche e Naturali, Rendiconti, Roma, série 8, v. 83, n. 1, p. 29-32, 1989.; p. 30). não é, portanto, um quarto sistema competindo com os outros três — é o sistema que os contém a todos, cada um aparecendo como um caso particular, dependendo de quais restrições decidimos impor sobre a fórmula em questão.
Bibliografia
Referências bibliográficas
- DA COSTA, Newton C. A. Calculs propositionnels pour les systèmes formels inconsistants. Comptes Rendus de l'Académie des Sciences de Paris, Paris, t. 257, p. 3790-3792, 1963.
- DA COSTA, Newton C. A.; MARCONI, Diego. A note on paracomplete logic. Atti della Accademia Nazionale dei Lincei, Classe di Scienze Fisiche, Matematiche e Naturali, Rendiconti, Roma, série 8, v. 80, p. 504-509, 1986.
- Referência completa: GRACHER, Kherian. Três vezes não: um estudo sobre as negações clássica, paraconsistente e paracompleta. Londres: College Publications, 2022.
- DA COSTA, Newton C. A. Logics that are both paraconsistent and paracomplete. Atti della Accademia Nazionale dei Lincei, Classe di Scienze Fisiche, Matematiche e Naturali, Rendiconti, Roma, série 8, v. 83, n. 1, p. 29-32, 1989.DA COSTA, Newton C. A. Logics that are both paraconsistent and paracomplete. Atti della Accademia Nazionale dei Lincei, Classe di Scienze Fisiche, Matematiche e Naturali, Rendiconti, Roma, série 8, v. 83, n. 1, p. 29-32, 1989.
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